Escola paraolímpica de basquete inclui jovens cadeirantes no esporte
Ginásio do Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE), sábado, dez horas da manhã. Está tudo calmo e silencioso. De repente, duas crianças deslizam depressa pelo corredor que leva aos vestiários. Não param nem para cumprimentar aqueles que os saúdam. Minutos depois, ouvem-se batidas: tum, tumtum. E a primeira risada. Os meninos entram em velocidade na quadra. Fazem uma volta de reconhecimento, enquanto quicam a pesada bola laranja. Em minutos vai começar a aula.
Os dois garotos são alunos da única escola paraolímpica de basquete do Rio Grande do Sul. Integram o projeto Piá Basqueteiro. Iniciativa que, gratuitamente, apresenta o esporte a 15 crianças cadeirantes, na maioria entre 14 e 16 anos. A ideia partiu dos coordenadores da Associação RS Paradesporto que trabalha, desde 2005, para tornar a atividade física parte da vida de portadores de deficiência. Para participar, basta fazer um cadastro e ter vontade.
Sete meninos e duas meninas se reúnem ao redor de Luiz Portinho, presidente da RS Paradesporto, e de Ana Rosa Silveira, professora de Educação Física e coordenadora voluntária, para receber instruções de alongamento do tórax e braços. Ana destaca que o esporte é uma forma referencial de o deficiente conhecer o corpo e suas possibilidades: “Eles começam a jogar e percebem que podem passar da cadeira para a cama, que é possível tomarem banho sozinhos. Aumentam a sua autonomia”.
O alongamento se encerra e pequenos cones são enfileirados no piso de madeira, os garotos iniciam um exercício de destreza no manejo da cadeira. E logo arrancam sorrisos da pequena torcida que os assiste. Um dos casais que observa o desenrolar da manhã é Adriano Luiz Souza, 47 anos, e Elisabeth da Silva Santa Cruz, 42 anos. São os pais de Fabiano Souza da Silva, 12 anos. Irmão do ex-jogador do Internacional Luiz Adriano, atual atacante do Shakhtar Donetsk da Ucrânia, Fabiano sempre foi fã de futebol e da posição de goleiro. O jovem nasceu com uma má formação na coluna vertebral. Até os sete anos caminhava, mas em 2007, após uma cirurgia, sua mobilidade ficou comprometida. No ano passado, em um jogo no Estádio Beira Rio, Portinho o convidou para participar do Piá Basqueteiro, desde então o menino aprendeu a gostar da pequena rede. Assista a entrevista em que os pais de Fabiano relatam os benefícios que o esporte traz ao seu filho.
Persistência pelo sonho
A dificuldade de realizar movimentos torna-se questão fundamental na vida do portador de deficiência física. O isololamento e a revolta podem surgir entre alguns indivíduos. Resultado perigoso e complicador da recuperação. O engajamento em uma atividade competitiva e de grupo é uma das maneiras consagradas como aliada. A certeza da potencialidade dos deficientes impulsionou Luiz Portinho a colocar em prática as lições que aprendeu ainda na infância, quando se tornou cadeirante. No vídeo abaixo, Portinho fala sobre as motivações para criar a Associação.
O advogado de 37 anos não titubeou em entrar com uma representação no Ministério Público Estadual para garantir alguma forma de apoio oficial à escola de basquete paraolímpico que ele e os amigos desejavam montar. Depois da cinco anos de batalha foi possível organizar a primeira lição de basquete para um grupo de sete crianças, em abril de 2009. A conquista incluiu a liberação do espaço no CETE para uso exclusivo aos sábados, uma Kombi oferecida pela Secretaria de Acessibilidade de Porto Alegre para o transporte das crianças, onze cadeiras de rodas adaptadas para a atividade e um estagiário de Educação Física cedido pelo poder estadual. Entretanto, Portinho resalva que a ajuda não se manteve: “As autoridades públicas sabem que o projeto existe, mas agem como se não existisse”.
A falta de patrocínio é uma das questões que perturbam a continuação da iniciativa. São necessários um novo estagiário (o anterior teve o período de bolsa encerrado e não foi substituído) e verbas para ampliar o atendimento e melhorar as condições oferecidas. Em especial o transporte, grande barreira para o aumento da turma.
Competição
O jogo começa. A turma é dividida em cores, amarelos contra azuis. Se até esse instante o clima era de muita diversão, os ares mudaram. Ana lança a bola e a disputa é quente. Logo são feitas as primeiras cestas. O amarelo marca e o azul também. Os jovens disputam a bola e não há diferenças na empolgação de cada um. Todos querem jogar, fazer seu arremesso certeiro e, o melhor, roubar a bola do outro. Até que se ouve o apito de Portinho. É preciso parar a partida. A vontade foi longe demais e as faltas começaram a aparecer.
Vale esclarecer que o basquete paraolímpico é similar ao convencional. “A única adaptação, pode-se dizer, são as cadeiras de rodas. O restante é igual. Todas as regras, os contatos, as faltas, os limites de quadra e altura da tabela”, clarifica Portinho.
Futuro
Ronaldo Germano, 41 anos, vice-presidente da Associação e integrante da equipe adulta de basquete da RS Paradesporto, também faz parte do grupo que passa experiência para as crianças. Ele afirma que voltou a viver com o esporte. “Depois da minha deficiência (aos 21 anos), foi a maneira mais rápida de me socializar. Com o basquete, busquei novas possibilidades. O segredo é encontrar os teus iguais, um vai dar coragem para o outro”. Para ele, o papel do projeto é incentivar os adolescentes à independência, introduzindo-os a novas oportunidades.
Construir jovens que, no futuro, contribuam para mudanças de valores da sociedade é o desejo dos coordenadores da RS Paradesporto. Formar cidadãos que se conheçam muito bem e indiquem novos caminhos de autonomia para os deficientes, aproveitando a prática esportiva como grande parceira. “Daqui, quem sabe, não sai um presidente?”, completa sorrindo Ronaldo. O treino do dia acabou e pela expressão de quero mais da garotada, há chance de que a expectativa se realize.
As aulas do Projeto Piá Basqueteiro ocorrem aos sábados, das 10h às 12h, no CETE (Rua Gonçalves Dias, 628). A sede da Associação RS Paradesporto fica na Rua dos Andradas, 1560/sala 611, em Porto Alegre. Fone: (51) 9841-6381.

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